
Monday, January 9 - 3:45 am
Sabe aquela garota loira que tá sentada em uma mesa com um carinha e que não para de olhar pra cá de cinco em cinco minutos? Eu costumava chamá-la de namorada. Uma namorada quase não-namorada. Ela era a garota mais ciumenta e pegajosa que eu já havia conhecido em toda a minha vida. Me mandava mensagem de dois em dois minutos e eu costumava nem ler. Ela sempre andava com um livro na mão e vivia recitando poemas de amor para mim que na maioria das vezes eu nunca entendia. Eu percebia a forma como um sorriso bobo se abria em seu rosto quando ela vinha falar comigo e como as suas pupilas se dilatavam quando eu olhava dentro dos seus olhos. Ela era totalmente ingênua em acreditar que “nós” existíamos. Na verdade, não tinha “nós”. Enquanto ela estava em seu quarto sonhando — possivelmente comigo — eu estava na balada enchendo a cara e ficando com a terceira garota da noite. Acho que na verdade ela já sabia que eu nunca fui dela. Mas ela continuava se alimentando daquele amor que ela sentia. Continuava se alimentando de esperanças e esperanças. Continuava satisfeita com o nosso amor, na verdade, com o seu amor. Eu sempre a tratei como mais uma. Mais uma garota que eu tinha nas minhas mãos. Mas isso não durou para sempre. Toda aquela velha euforia que ela sentia ao me ver na escola aos poucos foi diminuindo e as mensagens fofas que eu costumava receber de madrugada desapareceram. Aquele brilho que ela tinha no olhar ao me encarar foi substituído por uma frieza enorme e o sorriso bobo que ela já havia acostumado a dar se tornou algo mais raro do que um trevo de quatro folhas. Ela não me dizia oi nem tchau. Passava por mim como se não me conhecesse e os poemas que ela vivia recitando para mim num passe de mágica sumiram. Eu nunca pensei que eu fosse dizer isso, mas eu sinto falta dela. Sinto falta da forma como ela vivia mexendo no óculos que insistia em cair sobre o nariz e da forma como ela tinha uma risada estranha. Uma risada gostosa de se ouvir. Ela não era apenas mais uma. Ela era a garota. E aos poucos eu é quem sorria ao ver ela. Era eu quem tentava de uma forma completamente louca e absurda puxar assunto sobre a prova de geometria que teve na semana passada e de como o cabelo dela ficou melhor naquele corte de cabelo. Ela fingia não se importar e saia me deixando falar sozinho. Eu a perdi. Perdi quem eu menos podia perder. E então eu percebi como eu fui um idiota por ter deixado ela escapar. Eu tinha ela em minhas mãos, mas hoje vejo que ela pode fazer o que quiser comigo. E pode acreditar, ver ela com outro carinha meche de uma forma diferente comigo. Talvez seja porque era eu quem devia estar acompanhando ela na festa de formatura da escola ou em uma balada onde todos costumam ir no final de semana. Afinal, o que é que ela faz fora de casa a essa hora? Ei, mas uma dose! Então.. Onde paramos mesmo? Ah é. Ela não é só mais uma garota. Ela é diferente, não é como as outras por aí. Ela não é uma garota de uma noite só. Ela é aquela garota ideal para você levar em uma almoço de família em um domingo e apresentar para os seus pais. É aquela que insiste em dizer que é feia, mas que é linda e tem um sorriso que ilumina um parque de diversões inteiro. Cheia de fases, sorrisos, manias. Ela é a garota. Ela é a minha garota. Pena que eu não percebi isso tudo, antes. Porque para ela eu já não significo mais nada.